Fotografia na berlinda 2005                                                                                

© Carlos Fadon Vicente

 

Fotografia na berlinda foi escrito em março de 2015 para um blog sobre fotografia planejado pela Fundación Mapfre (Espanha) e que todavia não foi levado adiante. Organizado originalmente em 3 blocos, segue-se uma versão com diversas alterações e cujos links foram verificados em dezembro de 2019.

Fotografia na berlinda (1) (2) (3)


Pode-se afirmar que o percurso histórico da fotografia caracteriza-se por transformações de ordem técnica e sobretudo estética de distintas grandezas, dentre as quais a recente passagem para base eletrônica – dita fotografia digital – tem um lugar destacado.


Ao longo do tempo a imagem fotográfica impregnou a cultura, conformando e refletindo variados costumes e convenções de diferentes agrupamentos sociais. Trata-se de um processo complexo em que se formam e reformam tanto a relação entre fotografia e realidade como a definição e o status da fotografia.


Nesse contexto, relembre-se a ambivalência da representação fotográfica, qual seja, constituir simultaneamente um registro visual e uma criação, cuja elaboração se faz de algum modo a partir da realidade (abstendo-se preliminarmente de questionar a noção de realidade). Essa inerente dualidade – documental e ficcional – permeia a concepção/realização e a utilização/apreensão de toda e qualquer fotografia. Tal condição não prefigura uma dicotomia e carrega um equilíbrio dinâmico – instável, senão pendular – que se evidencia quando da leitura/análise da imagem.


Embora essa formulação teórica devida a Boris Kossoy seja relativamente recente, ela ajuda a iluminar alguns pontos nos primórdios da fotografia. Interessa aqui evidenciar particularmente a componente de encenação/invenção encoberta pela crença na fidelidade/objetividade do realismo fotográfico, abordando-se de modo expedito alguns aspectos da paisagem e do retrato.


A literatura, em especial os relatos de viagem, moldou o imaginário da paisagem e do monumento distante, senão exótico, servido até então pelo desenho e pela pintura, os quais vieram a subsidiar a realização em fotografia. Colhem-se exemplos nas imagens feitas por Maxime Du Camp, Francis Frith, Édouard Baldus, Roger Fenton e Marc Ferrez, entre outros.


Observe-se adicionalmente que essa aproximação, misto de revelação e idealização, se reconhece adiante na fotografia aplicada à propaganda, seja comercial, seja política.


O retrato fotográfico absorveu em parte o ideário da pintura, tempos depois a recíproca se mostraria verdadeira. Em contraponto ao flagrante e à surpresa – o momento inesperado, não raro tem-se o domínio da encenação e da idealização, invocando a pose e a pós-produção (dito retoque), cunhando depois a noção de fotogenia. Uma clara referência se encontra na figura que se segue, apresentando o estúdio de Disdéri por volta de 1865. Note-se ao centro o trabalho de retoque e ao fundo o cenário em uso.



fonte: Jean-Claude Lemagny & André Rouillé. A history of photography: social and cultural perspectives. Cambridge, MA: Cambridge University Press, 1987, p. 41.


A elaboração do retrato em fotografia recebeu ainda a influência da literatura e articulou-se com os jogos sociais, a exemplo do tableau vivant. Enriqueceu-se também com a introdução da fotomontagem como um recurso estético-conceitual, um procedimento que se espalharia ao longo do tempo em diferentes frentes da expressão fotográfica.



Henry Peach Robinson. Fading Away (1858); Preliminary sketch with photo inserted (c. 1860).

fonte: Naomi Rosenblum. A world history of photography. New York: Abbeville, 1984, p. 228.


O vínculo da representação fotográfica com o teatro não passa assim desapercebido, endossado pela atribuição de valor à fotografia como documento. Esse traço pode ser identificado na staged photography, remontando aos anos 1980, no quadro do pós-modernismo.